quinta-feira, 16 de junho de 2011

Janela indiscreta - O Reality Show de Hitchcock


Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Michael Hayes e Cornell Woolrich
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter e Wendell Corey
Gênero: Suspense
Origem: Estados Unidos
Duração: 112 minutos


Apesar de sua estréia ter sido há mais de cinqüenta anos, Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock, revela-se bastante atual, se comparado aos reality shows contemporâneos. A clássica curiosidade humana de observar a vida alheia, através de fechaduras ou janelas, tem sido um negócio bem lucrativo para as grandes empresas de comunicação. Apoiado basicamente na mesma idéia, Hitchcock nos concede um filme inteligente, cujo suspense acontece de forma sutil e gradual, bem diferente das películas atuais do mesmo gênero. A história gira em torno de Jeff (James Stewart), um fotógrafo profissional que se vê obrigado a ficar o dia inteiro em seu apartamento, devido a um grave acidente de trabalho. Inerte numa cadeira de rodas, ele passa a observar de sua janela a vida dos vizinhos, através de sua câmera. Aos poucos, o que era um simples passatempo, se torna uma obsessão. Até que um dia, Jeff começa a suspeitar que seu vizinho assassinou a própria esposa e escondeu o corpo no jardim. A partir daí, com a ajuda da noiva Lisa (Grace Kelly), o fotógrafo tenta a todo custo provar que o crime realmente aconteceu. Indiscutivelmente, Janela indiscreta está entre os melhores filmes de Hitchcock. Ele consegue, de forma singular e convincente, prender a atenção do expectador, através de um tema atual e ao mesmo tempo polêmico. Por meio dele, o mestre do suspense nos faz refletir sobre a invasão da privacidade alheia e suas inevitáveis conseqüências.

sábado, 7 de maio de 2011

Dogville: polêmico


Dogville é um filme interessante, inovador. A começar pela cenografia, limitada a linhas traçadas no chão. Dessa forma, chega a ser cansativo aos olhos de quem está acostumado às grandes produções hollywoodianas, cheias de efeitos especiais e cenários grandiosos. Mas justamente a ausência de cenários somada a alguns poucos objetos de cena, fazem do filme uma obra curiosa e provocante. Com ótimo roteiro, retrata de forma singular o homem e sua essência, por vezes egoísta, interesseira e invejosa. A passagem de Grace por Dogville mostra de maneira precisa e gradual o desabrochar dessas características humanas, provocando no espectador uma estranha e incomoda sensação de familiaridade com algumas delas.


Contos de Nova York

Lançado em 1989, o filme tem como tema central a cidade de Nova York. Consiste em três curtas dirigidos por grandes nomes como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Wood Allen. A princípio, é bem interessante a idéia de unir em um mesmo projeto grandes diretores. O problema é que nem todos convencem. Em Lições de Vida, Scorsese consegue prender a atenção do expectador ao contar a estória de um pintor e sua obsessão por sua assistente. É inspiradora a junção de imagem e música em algumas cenas. Já A Vida Sem Zoe, de Coppola, não consegue empolgar. A estória da garota que mora em um hotel longe dos pais chega a ser enfadonha. Por fim, Édipo Arrasado, de Woody Allen, mostra-se um conto inteligente e divertido. Considero o melhor dos três. Além de bom roteiro, apresenta atuações convincentes. Analisando o filme como um todo, concluo que, apesar de alguns pontos positivos, a alternância entre bons e maus momentos faz de Contos de Nova York um filme regular.

Crônica de um chute

Espanha. Final de campeonato, estádio lotado. O jogador pega a bola, ajeita com carinho. Seus batimentos aceleram. Um gol. Apenas um para sacramentar a conquista do título! Apenas um para fazer dele herói ou vilão. Concentração. A multidão silencia. Câmeras se posicionam para registrar o momento histórico. Ele respira fundo, dá dois passos para trás, corre e...
Morava em uma comunidade pobre no Brasil, sem saneamento básico e com altos índices de violência. Perdeu muitos amigos para o tráfico, inclusive o pai. Sua mãe tentava sustentar a casa fazendo faxinas, mas nem sempre havia serviço. Cedo, precisou trabalhar. Fazia de tudo: lavava carros, engraxava sapatos. Aprendeu a fazer malabarismo com fogo e, para ganhar uns trocados, apresentava-se em alguns sinais da cidade.
Como qualquer criança, tinha seus ídolos. Os dele, não eram super-heróis, nem astros do cinema, mas grandes nomes do futebol. Zidane, Ronaldo, eram ícones que povoavam sua mente. A bola era sua grande paixão e nos finais de semana, no campinho da comunidade, o garoto mostrava seu talento driblando e marcando gols. Tinha muitos sonhos, entre eles, ser um grande jogador e ganhar muito dinheiro.
E chegou seu dia. Depois de passar por um peneirão desses de bairro e fazer alguns testes em um clube da capital, conseguiu ser aprovado. Como que por um milagre, sua vida começou a mudar. Sagrou-se campeão pelo time de juniores. Bastante elogiado pela crítica esportiva, logo entrou para o time principal. Em seu primeiro jogo como titular, marcou um golaço! Em pouco tempo se tornou ídolo no clube. A cada lance, a cada drible ou gol marcado era ovacionado.
Começaram a surgir propostas de outros clubes, inclusive da Europa. Depois de muita negociação, foi vendido ao Real Madrid. Parecia um sonho jogar ao lado de grandes nomes do futebol mundial. Mas era realidade. A estrela do garoto pobre brilhara mais uma vez! Naquele ano, seu time fez uma belíssima campanha e ele foi considerado o melhor do campeonato.
Passou o tempo. Foram muitas vitórias, muitos títulos, mas daquele menino simples pouco restou. Ele agora era ídolo na Espanha. A fama e a riqueza fizeram dele um homem arrogante e presunçoso. Tinha tudo o que o dinheiro podia dar: belas mulheres, os melhores carros, mas algo lhe faltava...
Hoje, ele está em mais uma final. Após uma campanha brilhante, basta um empate para levantar a taça. O jogo começa. Descuido. Seu time leva um gol logo no início. Eles vão pra cima: bolas na trave, bolas tiradas em cima da linha e nada. O gol não sai. 46 do segundo tempo. O árbrito olha para o relógio, último lance. O jogador entra na área e é derrubado: pênalti! A torcida vai ao delírio!  Discussões, empurra-empurra, enfim, não tem jeito. Como um guerreiro que empunha sua espada para dar um golpe mortal no inimigo, ele pega a bola. Ajeita com cuidado, se posiciona. Silêncio total. O árbrito autoriza. Ele dá dois passos para trás, fixa o olhar na bola, corre e chuta! Feito um tiro a bola vai... Segundos que parecem uma eternidade. Ele torce, torce e... NA TRAVE! Caprichosamente na trave! Apito final. Ele desaba. O sonho se transforma em pesadelo. O mocinho vira bandido.
Silêncio no vestiário, jogadores desolados e ele... Perplexo.
Parado frente ao espelho, olha seu reflexo e percebe o quanto mudou. A riqueza e a fama o fizeram pensar que era invencível, que no campo ou na vida nunca seria derrotado. Mas agora ele percebe que perder também faz parte do jogo. Que na derrota é que se percebe o quanto somos frágeis e inconstantes.

                                                                                                                                 Wanderley A.Silva