sábado, 7 de maio de 2011

Crônica de um chute

Espanha. Final de campeonato, estádio lotado. O jogador pega a bola, ajeita com carinho. Seus batimentos aceleram. Um gol. Apenas um para sacramentar a conquista do título! Apenas um para fazer dele herói ou vilão. Concentração. A multidão silencia. Câmeras se posicionam para registrar o momento histórico. Ele respira fundo, dá dois passos para trás, corre e...
Morava em uma comunidade pobre no Brasil, sem saneamento básico e com altos índices de violência. Perdeu muitos amigos para o tráfico, inclusive o pai. Sua mãe tentava sustentar a casa fazendo faxinas, mas nem sempre havia serviço. Cedo, precisou trabalhar. Fazia de tudo: lavava carros, engraxava sapatos. Aprendeu a fazer malabarismo com fogo e, para ganhar uns trocados, apresentava-se em alguns sinais da cidade.
Como qualquer criança, tinha seus ídolos. Os dele, não eram super-heróis, nem astros do cinema, mas grandes nomes do futebol. Zidane, Ronaldo, eram ícones que povoavam sua mente. A bola era sua grande paixão e nos finais de semana, no campinho da comunidade, o garoto mostrava seu talento driblando e marcando gols. Tinha muitos sonhos, entre eles, ser um grande jogador e ganhar muito dinheiro.
E chegou seu dia. Depois de passar por um peneirão desses de bairro e fazer alguns testes em um clube da capital, conseguiu ser aprovado. Como que por um milagre, sua vida começou a mudar. Sagrou-se campeão pelo time de juniores. Bastante elogiado pela crítica esportiva, logo entrou para o time principal. Em seu primeiro jogo como titular, marcou um golaço! Em pouco tempo se tornou ídolo no clube. A cada lance, a cada drible ou gol marcado era ovacionado.
Começaram a surgir propostas de outros clubes, inclusive da Europa. Depois de muita negociação, foi vendido ao Real Madrid. Parecia um sonho jogar ao lado de grandes nomes do futebol mundial. Mas era realidade. A estrela do garoto pobre brilhara mais uma vez! Naquele ano, seu time fez uma belíssima campanha e ele foi considerado o melhor do campeonato.
Passou o tempo. Foram muitas vitórias, muitos títulos, mas daquele menino simples pouco restou. Ele agora era ídolo na Espanha. A fama e a riqueza fizeram dele um homem arrogante e presunçoso. Tinha tudo o que o dinheiro podia dar: belas mulheres, os melhores carros, mas algo lhe faltava...
Hoje, ele está em mais uma final. Após uma campanha brilhante, basta um empate para levantar a taça. O jogo começa. Descuido. Seu time leva um gol logo no início. Eles vão pra cima: bolas na trave, bolas tiradas em cima da linha e nada. O gol não sai. 46 do segundo tempo. O árbrito olha para o relógio, último lance. O jogador entra na área e é derrubado: pênalti! A torcida vai ao delírio!  Discussões, empurra-empurra, enfim, não tem jeito. Como um guerreiro que empunha sua espada para dar um golpe mortal no inimigo, ele pega a bola. Ajeita com cuidado, se posiciona. Silêncio total. O árbrito autoriza. Ele dá dois passos para trás, fixa o olhar na bola, corre e chuta! Feito um tiro a bola vai... Segundos que parecem uma eternidade. Ele torce, torce e... NA TRAVE! Caprichosamente na trave! Apito final. Ele desaba. O sonho se transforma em pesadelo. O mocinho vira bandido.
Silêncio no vestiário, jogadores desolados e ele... Perplexo.
Parado frente ao espelho, olha seu reflexo e percebe o quanto mudou. A riqueza e a fama o fizeram pensar que era invencível, que no campo ou na vida nunca seria derrotado. Mas agora ele percebe que perder também faz parte do jogo. Que na derrota é que se percebe o quanto somos frágeis e inconstantes.

                                                                                                                                 Wanderley A.Silva
  

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