Por Wanderley Silva
“Ser um artista o separa das coisas em geral. A mente está trabalhando em um ritmo mais rápido, mais sensível, com mais rebatidas do olho, do que a maioria das pessoas. A maioria das pessoas, digamos, têm a percepção de dez por minuto, enquanto que um artista tem de sessenta a setenta percepções por minuto. Honestamente, eu acho que é a razão pela qual tantos escritores bebem ou tomam calmantes ou qualquer coisa: para se acalmar, aquietar a máquina contínua que os põe em execução.” Essa frase resume bem Truman Capote. Escritor genial e polêmico, que foi o responsável por um dos maiores sucessos da literatura americana: A Sangue Frio.
Mas o que essa obra tem de tão especial? Na verdade, através dela, Capote inaugurou um novo gênero: o romance de não-ficção. Baseado em uma notícia lida no New York Times sobre um assassinato em série ocorrido no Kansas, o livro custou a Capote seis anos de sua vida.
O livro inicia com a descrição da cidade de Holcomb e de seus habitantes. Sotaque, jeito de se vestir, arquitetura das casas, além de prédios existentes no local, como uma danceteria e um banco que não funcionam mais, são descritos minuciosamente. Esses detalhes permitem ao leitor ambientar-se ao lugar que servirá de pano de fundo à boa parte da história.
Logo em seguida, somos apresentados a família Clutter. Primeiro ao Sr Clutter: um homem de altura mediana, ombros largos e queixo quadrado, que possuía grande influência na região. Aos poucos vamos conhecendo os outros integrantes da família e, com o decorrer das descrições, temos a impressão de estar sendo preparados para o que irá ocorrer mais adiante.
Mas os personagens que mais se destacam na história são justamente os dois assassinos, Perry e Hickock. Paulatinamente vamos descobrindo detalhes sobre eles, primeiramente, físicos e em seguida, sobre suas famílias, seus traumas de infância, manias e vícios. Em uma dessas descrições, o autor comenta trechos do diário que Perry escreveu enquanto aguardava julgamento na prisão. Informações importantes relativas ao crime são reveladas, como quando ele confessa que matou sozinho os quatro integrantes da família Clutter. É interessante como os criminosos despertam no leitor sentimentos de repulsa e empatia. O relato de suas ações, a princípio, da execução do crime e, logo depois, de suas infâncias e/ou convivência problemática no seio familiar, talvez seja um dos responsáveis por provocar de maneira paradoxal esses sentimentos no leitor.
Uma análise psicológica profunda é feita sobre os acusados, através do depoimento de uma testemunha de defesa, o Dr. W. Mitchell Jones, médico especialista em psiquiatria. A fala do psicólogo limitou-se a sim e não, já que a lei do Kansas só permitia esse tipo de resposta para uma pergunta pertinente, levando o autor a discorrer sobre o que Mitchell teria dito sobre Perry e Hickock se tivesse recebido autorização. Depois de uma análise consistente dos acusados, Capote mostra também um artigo publicado no The American Journal of Psychiatry de julho de 1960, cujo autor, o Dr. Joseph Satten, descreve um tipo específico de assassino que, apesar de ser considerado são e racional, comete atos homicidas bizarros e aparentemente desprovidos de sentido. Satten enquadra Perry Smith nesse perfil. A impressão que temos é que Capote, através de todas essas análises psicológicas, aliadas aos flashbacks da infância de Perry, tenta explicar ou até justificar a atitude dos acusados.
Mas A Sangue Frio não se limita apenas ao ponto de vista de Perry e Hickock. O autor nos mostra uma pluralidade de perspectivas e visões de diferentes personagens, resultado da longa jornada de entrevistas realizada por Capote. Informações sobre alguns moradores da cidade e também sobre os investigadores do caso acabam enriquecendo a obra e dando a ela mais credibilidade.
No que diz respeito à narrativa, apesar de Capote ter presenciado muito do que foi dito no livro, chegando a adquirir uma relativa amizade com Perry, percebe-se um esforço considerável de sua parte para acompanhar os personagens como um simples espectador, evitando assim, comentários e juízos de valor. Ele praticamente não interfere e nem participa de forma clara na história, apesar de sabermos que ele estava presente em algumas situações.
O livro, apesar de ter como história principal o assassinato dos Clutter e a trajetória dos criminosos, mostra também detalhes de outros crimes cometidos por pessoas que, assim como Perry e Hickock, estavam aguardando no mesmo corredor da morte suas execuções. A princípio, somos apresentados a Earl Wilson, um negro forte, condenado à morte pelo rapto, estupro e tortura de uma jovem branca. Logo em seguida, conhecemos também Bobby Joe Spencer, um jovem homossexual que confessou o homicídio de uma velha senhora de Kansas City e que, tempos depois, matou na prisão um dos presos por ciúme. Por fim, Capote destrincha a impressionante e não menos brutal história de Lowell Lee Andrews, um jovem que assassinou à tiros seus pais e sua irmã, crime esse que chocou os EUA em virtude da frieza do acusado.
Mas um momento na história que choca bastante, além do relato de Perry sobre como praticou os assassinatos, é quando o autor descreve as execuções dos acusados. São impressionantes e assustadores os detalhes contados por Capote já que, segundo pesquisadores, ele estava presente – pelo menos na execução de Hickock.
Outros autores também foram influenciados por Truman Capote e seu gênero de romance não-ficção, como os americanos Norman Mailer e Gay Talese. No Brasil, em 2007, o jornalista e escritor Guilherme Fiusa publicou em formato de thriller a biografia de João Guilherme Estrella, intitulada Meu Nome Não É Johnny. Estrella foi um jovem de classe média alta da Zona Sul carioca que se tornou um traficante de drogas nos anos 90. Percebe-se claramente a influencia do escritor americano nessa obra que, pouco depois, se tornou um filme.
Por fim, é importante observar que, A Sangue Frio, além de tornar Capote muito rico, provocou ironicamente sua decadência. Com muito dinheiro e cercado de luxo, foi um assíduo freqüentador de festas. Viciou-se em álcool e em drogas, e com o tempo começou a produzir menos obras. Morreu em 1965, em Los Angeles, prestes a completar 60 anos, deixando uma obra que marcou a história da literatura e do jornalismo mundial.

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